terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Mulheres incríveis partilham experiências,desafios e sonhos.

A caiçara Lydia Gonçalves descobriu as letras quando precisou lutar por justi­ça. Hoje, aos 74 anos, cinco filhos, mui­tos netos e bisnetos, está se formando pedagoga,tem dois livros publicados e faz planos de entrar na pós-graduação.


Nasci de novo quando aprendi a ler. Vivo melhor desde que me descobri entre os versos de Carlos Drummond de Andrade, a prosa de Clarice Lispector e José de Alencar. Até os 65 anos, eu era analfabeta -conheci as letras por necessidade de lutar pelo meu pedaço de chão. Cresci na terra indígena de Guarani Pia çaguera, no litoral paulista, e herdei do meu avô um lote e muito serviço. Capinava a roça. plantava man­dioca e milho. Aos 23 anos, fiquei viúva, sozinha com quatro filhos, e batalhei demais para sustentar a famí­lia e reconstruir minha vida. Com 34, me casei outra vez. Meu marido me renovou e tivemos uma criança.

Em 2001, como estavam construindo um loteamento ao lado da minha casa, resolvi legalizar a propriedade que estava na família havia várias gerações. Fui trapa­ceada: pessoas sem escrúpulos me tomaram metade da área. Tudo porque não sabia ler e confiei em quem não deveria. Decidida a não ser passada para trás de novo, fui estudar. Descobrir que uma sílaba com outra fazia nascer as palavras parecia um sonho! Depois do ensi­no fundamental, terminei o segundo grau no curso de alfabetização para adultos e entrei na faculdade de pedagogia. Aí brotaram poemas e contos. Em 2007, es­crevi o livro A Felicidade Está a Sua Espera, sobre o prazer de vencer desafios. Mosaico Caiçara é minha segunda obra, um resgate da cultura de meu povo. Ser autora é mais do que sonhei na vida. O meu terceiro livro está a caminho, mas não esqueci minha missão: conti­nuo lutando para recuperar minhas terras na Justiça1 A dignidade e a alegria eu já recuperei. Hoje eu escrevo meu destino, que é fazer mestrado e doutorado em educação. É como um dos meus poemas "Meus olhos revelam minha liberdade. Agora sei a verdade de mim mesma e sou feliz”

Revista Cláudia / Dezembro 2010

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